Seria engraçado, se não fosse trágico, a quantidade de pessoas melhores do que eu que entram na minha vida. É como se em todo grupo social que eu convivo eu esteja fadada a ser o joio no meio do trigo, a medalha de honra, o prêmio de consolação. Não importa o que ou como eu faça, sempre tem alguém que eu conheço que virá e fará melhor. Esse alguém é você.
Você é foda. Você se destaca, você me ofusca. Você é aquele que as pessoas primeiro lembram quando determinado assunto é tocado. Você é o primeiro no esporte, você é o primeiro nas matérias, você é o primeiro em simpatia, você é o primeiro em tudo. Você canta, você toca dez instrumentos, você dança, você cativa todo mundo. Você canta, dança e toca dez instrumentos ao mesmo tempo. Você é o melhor. Eu não sei cantar, eu não tenho coordenação motora suficiente pra mover meus pés e braços ao mesmo tempo e tornar isso uma visão agradável, eu não toco nem guitarra imaginária (quem dirá flauta doce cônica invertida). Você que tem de ser apreciado. Você é o bom. Você é o primeiro lugar. Você se destaca da multidão positivamente. Eu só escrevo.
Talvez a única coisa em que eu seja do que você, talvez a única coisa que me faça realmente acreditar que eu seja o primeiro lugar, seja toda essa palhaçada de atuação. Atuar porque é isso que eu faço todos os dias. É isso o que eu faço quando acordo todas as manhãs, encaro o teto e penso eu tenho de viver mais um dia. Atuar quando eu saio de casa e chego na escola. Atuar e fazer as pessoas pensarem que está tudo bem comigo, que eu estou feliz. Que eu estou tão, mas tão alegre, que preciso fazer com que as outras pessoas sorriam comigo. Essa máscara que quase nunca cai, e quando sim, sempre há a desculpa perfeita, uma atuação por trás da atuação, e na verdade, o motivo real pra tanto fingimento, pra tantos papéis, pra tantos personagens ninguém sabe. Nem eu sei.
É uma necessidade. Talvez criando tantas de mim assim, diferentes, eu possa conquistar as pessoas como você faz tão facilmente, tão naturalmente. Eu preciso fazê-las rir comigo para eu esquecer por um tempo porque eu mesma não sorrio quando estou comigo ou porque poucos são aqueles que precisam que eu sorria de verdade. Sorrir com o corpo quando a minha mente chora. Quando por dentro eu sou meu maior inimigo, por favor não me deixe sozinha com meu silêncio.
Máscaras por trás de máscaras, atuações por trás de atuações, desculpas por trás de desculpas. Eu não sou a única que se sente assim. Eu não sou a única que age assim. Meu miolo é podre demais, minha essência é corrompida. Meus preconceitos, minhas concepções, meus valores. Você, meu conhecido perfeito que também deve ter tantas máscaras quanto eu, não conseguiria conviver com o meu eu verdadeiro, porque nem eu consigo. Talvez ninguém consiga conviver com o eu verdadeiro de ninguém, talvez as pessoas consigam fingir pra elas mesmas que são o que fingem ser melhor do que eu. É por isso que eu sofro tanto, eu não consigo mentir pra mim.
Mas o sol continua a nascer, outros dias continuam a chegar, outras vezes eu encaro e teto e penso que tenho de levantar e suportar mais um dia. E aí eu atuo e vou existindo. Porque viver é uma das coisas mais difíceis desse mundo.

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